Eparrei Iansã

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Yansã é a deusa da tempestade, do fogo e da sensualidade. Simboliza as mulheres guerreiras e todas as pessoas que têm determinação e vivacidade. Destemida e justiceira, nada teme. Mostra o seu amor e a sua alegria contagiante na mesma proporção que exterioriza a sua raiva e o seu ódio.

É a mulher que acorda de manhã, beija os filhos e sai em busca do sustento. Capaz de grandes esforços para conquistar os homens e para proteger seus rebentos. Sabe conquistar, seja no fervor das guerras, seja na arte do amor. É o retrato da mulher batalhadora que vende quitutes no mercado para sustentar seus noves filhos.

“Iansã é uma mulher guerreira e batalhadora”, diz a antropóloga Teresinha Bernardo, da Pontifica Universidade Católica de São Paulo.

“Iansã encarna a mulher dos séculos 20 e 21, que sabe o que quer e vai à luta”, diz o antropólogo Júlio Braga, diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e cultural da Bahia.

IANSÃ É A PAIXÃO

Paixão violenta, que corrói, que cria sentimentos de loucura, que cria o desejo de possuir, o desejo sexual. É a volúpia, o clímax. É o desejo incontido, o sentimento mais forte que a razão.

É o Orixá que faz o coração bater com mais força e cria em nossas mentes os sentimentos mais profundos, abusados, ousados e desesperados.

É o ciúme doentio, a inveja suave, o fascínio enlouquecido.

IANSÃ É O VENTO

É agitada como o próprio vento. Extrovertida e sensual como poucas.

Vento e brisa que alivia o calor, no entanto é também o calor, a quentura, o abafamento.

É o tremular dos panos, dos cabelos, que arranca árvores, derruba casas, sustenta o fogo, espalha sementes.

Os orixás estariam cansados de não ter acesso às folhas, tão importantes para qualquer celebração litúrgica e para muitos outros aspectos da vida material. Nesse aspecto, eram completamente dependentes de Ossãim, que reinava sozinho em seu domínio, Incitada por Xangô, Iansã abanou fortemente sua saia, provocando um terrível vento (o afefé) que arrancou todas as folhas que Ossãim tentava resguardar com o próprio corpo. A partir de então, as folhas foram repartidas e cada orixá possui as suas próprias plantas, mas isso não retirou totalmente de Ossãim o seu poder.

IANSÃ É TRANSFORMADORA

Tem também ligação com a floresta, onde se esconde, entra como mulher e se transforma num búfalo – considerado Sagrado e nobre por muitas tribos – carne alimentava o povo, o couro fornecia roupa e abrigo, os ossos forneciam ferramentas. Propicia a caça e alimento abundante.

Oyá recebeu, de Olorun, a missão de transformar e renovar a natureza através do vento, que ela sabe manipular. O vento nem sempre é tão forte, mas, algumas vezes, forma-se uma tormenta, que provoca muita destruição e mudanças por onde passa, havendo uma reciclagem natural. Normalmente, Oyá sopra a brisa, que, com sua doçura, espalha a criação, fazendo voar as sementes, que irão germinar na terra e fazer brotar uma nova vida. Além disso, esse vento manso também é responsável pelo processo de evaporação de todas as águas da terra, atuando junto aos rios e mares. Esse fenômeno é vital para a renovação dos recursos naturais, que, ao provocar as chuvas, estarão fertilizando a terra.

IANSÃ É O FOGO.

É a quentura, o aquecimento, o aconchego e a aproximidade. O fogo das paixões, da alegria, o fogo que dá a faísca, o impulso. De temperamento forte, sensual e autoritário. É a lava vulcânica destruidora, a devastação e o incêndio pelas chamas.

IANSÃ OYÁ É O RAIO.

É a beleza desse fenômeno natural, é o seu poder, a sua eletricidade.

É o choque elétrico, a energia que gera o funcionamento de rádios, televisões, máquinas.

Iansã está presente no ato simples de acendermos uma lâmpada ou uma vela. É a energia viva, pulsante, vibrante. Yansã está intimamente ligada aos avanços tecnológicos

IANSÃ OYÁ É A SENHORA DOS ESPÍRITOS MORTOS.

Senhora dos eguns, como se diz no Candomblé.

É ela que servirá de guia, quem indicará o caminho, ao lado de Obaluayê, para aquele espírito que se desprendeu do corpo.

OYÁ RELACIONA-SE COM TODOS OS ELEMENTOS DA NATUREZA.

Oyá é puro movimento. Não pode ficar parada, para não extinguir sua energia. O vento nunca morre, ele está sempre percorrendo novos espaços.

Embora tenha sido a primeira esposa de Xangô, Oia percorreu vários reinos usando sua inteligência, astucia e sedução aprendeu de tudo.

Foi paixão de Ogum, Oxaguian, Exu. Conviveu e seduziu Oxóssi, Logun-Edé e tentou, em vão, relacionar-se com Obaluaiê.

Em Ifê, terra de Ogum, foi a grande paixão do guerreiro. Aprendeu com ele e ganhou o direito do manuseio da espada e ganhou deste o direito de usá-la.

No auge da paixão por Ogum, Iansã partiu, indo a Oxogbô, terra de Oxaguian, aprendeu e recebeu o direito de usar o escudo para se proteger.

Quando Oxaguian estava tomado de paixão por Oyá, ela partiu. Pelas estradas deparou-se com Exu. Com ele se relacionou e aprendeu os mistérios do fogo e da magia.

No reino de Oxóssi, seduziu o deus da caça, aprendendo a caçar, tirar a pele do búfalo e se transformar naquele animal com a ajuda da magia aprendida com Exu.

Seduziu o jovem Logun-Edé, filho de Oxossi e Oxum e com ele aprendeu a pescar.

Oyá partiu, então, para o reino de Obaluaiê, pois queria descobrir seus mistérios e até mesmo conhecer seu rosto.

Uma vez chegando ao reino de Obaluaê, Iansã tratou de insinuar-se:
– Como vai o Senhor das Chagas?
No que Obaluaê respondeu:
– O que Oyá quer em meu reino?
– Ser sua amiga, conhecer e aprender, somente isso. E para provar minha amizade, dançarei para você a dança dos ventos!
(Dança que, por sinal, Iansã usou para seduzir reis como Oxossi, Oxaguian e Ogum).
Durante horas Iansã dançou, sem emocionar ou, sequer, atrair a atenção de Obaluaê. Incapaz de seduzir Obaluaê, que jamais se relacionou com ninguém, Iansã então procurou apenas aprender, fosse o que fosse. Assim, dirigiu-se ao homem da palha;
– Obaluaê, com Ogum aprendi a usar a espada; com Oxaguian, o escudo; com Oxossi aprendi a caçar; com logun-edé a pescar; com Exu aprendi os mistérios do fogo. Falta-me apenas aprender algo contigo.
– Você quer aprender mesmo, Oyá? Então, ensinar-lhe como tratar dos mortos!
De inicio Iansã relutou, mas seu desejo de aprender foi mais forte e, com Obaluaê, aprendeu a conviver com os eguns e controlá-los.

Partiu, então Oyá, para o reino de Xangô. Lá, acreditava, teria o mais vaidoso dos reis e aprenderia a viver ricamente. Mas, ao chegar ao reino do deus do trovão, Iansã aprendeu muito mais que isso… Aprendeu a amar verdadeiramente e com uma paixão violenta, pois Xangô dividiu com ela os poderes do raio e deu a ela o seu coração.

Nenhum vento poderá desviar a minha barca…

Nenhum raio mudará o meu caminho…

JUS – Mônica Caraccio