Nasci!!! E agora?


Depois de três abortos e uma quarta gravidez, toda controlada, com repouso e tratamento; com sete meses de gestação, finalmente minha filha nasceu! E agora? Eu seria capaz de cuidar dela? Daria certo? Eu a perderia, como perdi os outros? Tudo isto e muito mais me veio à mente depois do seu nascimento.

Cada um dos meus abortos tinha deixado sua marca. No primeiro, muita hemorragia; no segundo, muita dor e a perda aos seis meses de gestação; no terceiro, comecei a perder em casa e vi os pezinhos do bebê. Não sei expressar em palavras o que senti. Foi muito forte! A gente sente como se arrancassem um pedaço da gente e, parece que não vai cicatrizar nunca mais.

Depois disso tudo, resolvi que não tentaria mais. Adotaria um bebê. Afinal, sou adotiva e sei quanto amor, cuidado e atenção recebi. O médico, porém, me convenceu a fazer um novo tratamento e, pediu que tentássemos mais uma vez. Algo dentro de mim falou mais alto e… tentei.

Depois de três meses de tratamento, ainda não estava na hora certa, mas engravidei. Daí bateu um medo, uma insegurança muito grande, mas fomos em frente. Eu continuei fazendo tratamento nos três primeiros meses da gestação e tive todos os cuidados possíveis, com muito repouso. Cada mês era um avanço, mas o medo me acompanhava e a insegurança também.

Quando completei sete meses de gestação, minha filha nasceu. Naquele dia, nem tive tempo de ter medo, foi tudo muito rápido, quando vi, ela estava aqui. Pequenina, parecia tão frágil e foi direto para uma incubadora. Quando a vi, no dia seguinte, na incubadora, me deu um aperto no coração. Ela era muito pequena, estava toda encolhida, o medo veio muito forte mais uma vez.

O primeiro colostro que saiu dos meus seios, foi dado a ela com uma seringa e, eu me sentia impotente diante dela. Então, uma irmã do hospital, que estava conosco naquele momento, olhou pra mim e disse: Diga pra sua mãe que você apenas parece frágil, mas é um “espírito muito forte e de muita luz”.

Foi como se um raio divino me atingisse naquele momento. Iluminasse também minha filha, aquela irmã abençoada e toda maternidade!

Hoje, olhando para trás, vejo que foi Deus que falou conosco, através daquela freira. Minha filha está com 23 anos. É um “espírito” de muita luz e força! É minha amiga e companheira. Em muitos momentos, os papéis se invertem, é ela quem cuida de mim como se fosse minha mãe. Em outros, somos amigas, dividindo confidências, dando força uma para a outra. Nosso convívio, já teve momentos conflitantes, principalmente durante a adolescência. Mas, todas as discussões, os limites que necessitavam ser impostos, tudo foi uma construção para um relacionamento amoroso, harmonioso e de parceria.

Uma das grandes lições que toda essa experiência me trouxe, é que gerar um filho, é muito bonito, mas na hora H, é o que menos conta. É claro que é maravilhoso, sentir os movimentos do bebê, ouvir os batimentos do seu pequeno coração, saber que se está contribuindo para que uma nova vida seja concebida. Porém, também se passa por momentos de medo, angústia, desconforto, tantos outros sentimentos, quando a gravidez é de risco ou não.

Mas, “estar” mãe é muito mais do que isto. Somos mães, quando o bebê está em nosso colo. Quando passamos noites em claro, cuidando de cólicas, febres, tosses intermináveis e por aí vai. Somos mães, quando nos preocupamos com esses filhos, 24 horas por dia, durante todos os anos de vida deles. Amando, protegendo, amparando, dando força, dando nosso carinho e abraço de conforto, ajudando a enfrentar desafios, quando nos é permitido.

Depois de ter tido minha filha, aprendi que minha mãe adotiva, não foi, não “esteve”, menos minha mãe do que eu estava sendo para minha filha!

Ser mãe é isso, amar incondicionalmente para o resto da vida. Cuidar, amparar, estar presente sempre que possível. Não importa se esse filho foi gerado por você ou não, mas sim, o quanto você “está” mãe desse ser, enquanto estiver junto dele ou… mesmo que um dos dois já tenha partido.

Meu coração estará unido para sempre à minha mãe que me gerou e, por suas razões, não pode “estar” minha mãe. Estará para sempre com minha mãe que “esteve” minha mãe, enquanto nos foi permitido estarmos juntas e, estará unido para sempre com esta pessoa maravilhosa que “está” minha filha nesse momento!

Se a humanidade toda pudesse sentir o “amor verdadeiro e único” que sente uma mãe, talvez o mundo não estaria tão perdido e sem rumo.

CLAUDETE LOTH