Umbanda e o Homossexualismo


Existem coisas que, realmente, não há como entender.
Venho há anos estudando religiões e não consigo entender, por exemplo, como os movimentos protestantes conseguem adorar um Deus que, ao mesmo tempo, ama e odeia todas as suas criaturas.

Esta semana estava em uma jantar de confraternização da associação profissional da qual faço parte e, como sempre, política, religião e futebol são assuntos sempre presentes nas mesas. Apesar de achar que são temas delicados demais para se discutir de forma imparcial, nunca me furto ao debate, sejam com quem for.

No meio da conversa, que saiu abruptamente do tema “Obama” para o “religião”, um amigo, já em um grau de embriaguez alto, menciona que eu era um “pai-de-santo”, informação esta emendada por outro participante com a seguinte afirmação:

“Xiiii… todo pai-de-santo é gay!”.

Houve um mal estar geral na mesa, com exceção de mim que permaneci tranquilo. Não foi esta a primeira, e com certeza não será a última vez, que escuto tal bobagem.

Apesar do mal estar, percebi que as pessoas esperavam uma resposta de minha parte, talvez curiosas em saber se realmente eu era homossexual ou, sabe-se lá o que se passa na cabeça das pessoas, se realmente todo sacerdote de Umbanda e Candomblé é gay.

Perguntei ao autor desta “pérola” no quê se baseava para fazer tal afirmação, e ele respondeu que todos os “pais-de-santo” que conhecia e via na televisão são homossexuais, logo, por “lógica”, ele entendia que ser homossexual seria condição “sine quo non” para ser sacerdote de religiões de matriz africana.

Está certo… vamos levar em consideração que estamos lidando com uma pessoa que já havia bebido cinco ou mais doses de whisky, que apesar de ser formado em uma ciência que prioriza o pensamento lógico e despreza o uso de falácias, ele estivesse fazendo uma brincadeira sem graça.

Mas não era o caso.

Dizem que a bebida consegue desinibir e mostrar as pessoas sem as amarras sociais, ou seja, faz com que a máscara caia. Este sim foi o caso.

Perguntei ao meu interlocutor qual a religião que professava, e ele disse: sou evangélico. Sinceramente, tal revelação não causo-me surpresa, ainda mais quando ele, emendando a resposta, começou a citar versículos bíblicos que condenariam a homossexualidade.

Esperei que acabasse toda aquela verborragia e respondi que não era homossexual, mas que não tinha nenhum tipo de reserva à qualquer pessoa que o fosse. Afirmei que as religiões de matriz africana possuem muitos adeptos homossexuais porque não há (ou pelo menos não deveria haver) nenhum tipo de preconceito em relação às escolhas pessoais que cada um faz no campo da sexualidade, da política, etc.

Dentro da Umbanda, não se faz diferença entre o homo e o heterossexual, assim como entre o pobre ou o rico, entre o faxineiro e o presidente da multinacional. Pelo menos assim deveria ser em qualquer Terreiro, visto a universalidade de nossa doutrina, mas não seria eu hipócrita ao afirmar que realmente isto acontece em todos os lugares.

Conheço umbandistas que acreditam, realmente, que a homossexualidade é algo que deve ser tratado, como se fosse uma doença. Este conceito é igual ao da maioria esmagadora das denominações evangélicas e também da Igreja católica. Na cabeça destas pessoas, o homossexual pode ser “convertido” à heterossexualidade.

Estive fazendo uma pesquisa sobre a homofobia e descobri, estupefato, que 80% dos movimentos homofóbicos partem de igrejas de orientação protestante, em especial (que surpresa) as neopentecostais. O que não consigo entender é como pessoas que seguem um Mestre que pregou o “amai uns aos outros”, assim como ensinou que Deus não faz exceção de pessoas, podem encabeçar ações que, não raramente, terminam em violência e desrespeito à pessoa humana.

Nos Estados Unidos, por exemplo, existe a Igreja Batista de Westboro que prega abertamente o ódio de Deus pelos homossexuais. Aliás, o título deste artigo foi inspirado em uma frase recorrente que usam em seu site e em suas manifestações. Em uma tradução livre, seria algo como “Deus odeia as bichas”. Na verdade, para esta Igreja, Deus odeia todo mundo exceto, obviamente, aqueles que se alinham com suas idéias preconceituosas.

Apesar de ocorrer em menor escala, ainda existe preconceito contra homossexuais dentro do movimento umbandista, o que não deveria acontecer. A discriminação, seja lá por qual motivo for, é uma prática contrária aos mais básicos princípios da Umbanda e um ato lesivo à sua universalidade.

Infelizmente, a incompreensível prática da dupla filiação religiosa, como é o caso dos “católicos-umbandistas” que vemos aos montes por ai, contamina nossos Terreiros com as doutrinas e orientações do Vaticano. Conheço Terreiros que têm o quadro com o retrato do Papa em seus altares, que fazem novenas e observam o calendário litúrgico da Igreja Católica. Acompanhado estas práticas, vem também a hipocrisia, os conceitos pseudo-puristas das bulas papais.

Não acredito, realmente, que Deus odeia ninguém, sejam os homossexuais, os heterossexuais, os democratas, republicanos, corintianos ou são paulinos. O ódio é uma emoção por demais humana para que um Ser que é a Causa de tudo que conhecemos, sinta por qualquer uma de suas criaturas.

Deus é tão amoroso, tão misericordioso, que não odeia nem mesmo aqueles que em Seu Nome, pregam a violência e o preconceito.

Fonte: http://vozesdearuanda.wordpress.com/